A Retomada da Competitividade Europeia. 6 Frentes que Todo Líder Empresarial Precisa Acompanhar
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Paris, França.
O que acontece quando as antigas certezas econômicas desaparecem? Constroem-se novas. Ursula von der Leyen subiu ao palco do La Rencontre des Entrepreneurs de France, realizado em Roland Garros, e transmitiu uma mensagem direta aos líderes empresariais. A Europa vai produzir, investir e proteger. As antigas certezas incluíam energia importada barata, comércio mundial aberto, acesso automático ao mercado chinês, proteção estratégica americana e dominância tecnológica ocidental. A nova direção é construída sobre seis frentes de batalha, e cada uma vem com um plano concreto.
A concorrência justa vem primeiro. As empresas europeias estão pagando duas vezes, uma vez pelas suas próprias regras, e outra pelos concorrentes que não enfrentam os mesmos custos. A Comissão Europeia estabeleceu como meta cortar 25% da carga administrativa para todas as empresas e 35% para as PMEs até 2029. Doze pacotes de simplificação 'omnibus' podem economizar cerca de 17 bilhões de euros por ano. Seis já foram acordados e estão economizando 6 bilhões. Isso é alívio burocrático com impacto direto na competitividade. Os estados-membros também estão sendo incentivados a parar de adicionar camadas extras de burocracia às regras nacionais.
A concorrência justa começa em casa e vai além. O apoio estatal chinês às empresas pode chegar a oito vezes a média da OCDE. As importações chinesas na UE subiram 45% em cinco anos, enquanto as exportações europeias para a China caíram. O déficit comercial agora se aproxima de 1 bilhão de euros por dia, e pela primeira vez todos os estados-membros da UE têm déficit com a China. Mais da metade da produção industrial europeia enfrenta concorrência chinesa. A UE abriu mais de 30 investigações de defesa comercial em um ano, quase três vezes a média de longo prazo, e as medidas atuais protegem mais de 600 mil empregos europeus.
As matérias-primas fazem parte do mesmo cenário. A Europa depende da China para mais de 80% de muitas matérias-primas críticas e 90% de algumas terras raras. A resposta é uma política de segurança econômica que mantém os mercados abertos, com instrumentos de defesa comercial disponíveis quando o diálogo não é suficiente.
A segunda frente é o financiamento. A Europa não carece de capital, e cerca de 10 trilhões de euros em poupança das famílias estão parados em contas bancárias. E se uma parcela significativa desse capital começasse a fluir para empresas europeias? A União da Poupança e do Investimento foi criada para tornar isso possível. Medidas sobre securitização, investimento de bancos e seguradoras e supervisão do mercado podem mobilizar até 470 bilhões de euros em investimentos adicionais. O próximo orçamento da UE soma mais de 450 bilhões de euros por meio do Fundo Europeu de Competitividade e do Horizonte Europa, cobrindo pesquisa, inovação, protótipos e produção industrial.
A terceira frente é o mercado único. As barreiras internas em serviços, energia, telecomunicações e finanças têm um peso econômico equivalente a tarifas de 45% sobre mercadorias e 110% sobre serviços. Uma proposta emblemática se destaca. Um 28º regime chamado EU Inc. permitiria criar uma empresa em 48 horas, por menos de 100 euros, totalmente online e sem exigência de capital mínimo. Imagine só. A Lei do Acelerador Industrial agilizaria licenças, criaria mercados líderes para aço, cimento, alumínio, veículos, baterias e tecnologias limpas, e usaria as compras públicas de forma mais estratégica.
As competências também fazem parte do mercado único. Quase duas em cada três PMEs dizem que não encontram as qualificações de que precisam. A UE vai propor um pacote justo de mobilidade laboral, um Passaporte Europeu de Segurança Social e um reconhecimento mais forte das qualificações.
A energia é a quarta frente. Os preços na Europa ainda são duas a três vezes mais altos do que nos Estados Unidos ou na China, e mais da metade da energia consumida na Europa vem de combustíveis fósseis importados. A crise no Oriente Médio adicionou mais de 50 bilhões de euros a essa dependência sem acrescentar uma única molécula extra de energia. A Europa já produz mais de 70% da sua eletricidade a partir de fontes de baixo carbono, e a eletricidade atualmente representa apenas um quarto do consumo final de energia. O Plano de Ação para a Eletrificação foi desenhado para migrar a indústria, o transporte e os edifícios para a energia limpa.
As redes elétricas precisam de atenção urgente. No ano passado, foram instalados 80 gigawatts de capacidade renovável, e há seis vezes mais capacidade esperando para ser conectada. Dez terawatts-hora de eletricidade renovável foram perdidos por falta de capacidade de rede ou armazenamento, o suficiente para abastecer três milhões de residências por um ano.
A precificação de carbono também está sendo recalibrada. As licenças de emissão gratuitas permanecerão após 2030 para empresas que investirem em descarbonização. As contas da indústria podem cair quase 10 bilhões de euros até 2030, e a partir de 2027 um Acelerador de Investimentos pode mobilizar 30 bilhões de euros. Espera-se que o Banco de Descarbonização Industrial mobilize mais de 100 bilhões de euros até 2030.
A inteligência artificial é a quinta frente. A estratégia da Europa é produzir e implantar. Para produzir, a UE está investindo 20 bilhões de euros em gigafábricas de IA, e a primeira chamada atraiu 77 propostas de 16 estados-membros em 60 locais. A Lei de Desenvolvimento da Nuvem e da IA e a Lei dos Chips 2.0 vão reforçar a cadeia, dos componentes aos modelos. Para implantar, a IA precisa chegar às fábricas, laboratórios, hospitais, redes de energia, transporte e serviços públicos.
A sexta frente é a abertura, com condições justas. Os acordos comerciais agora são ferramentas para diversificar cadeias de suprimentos, garantir matérias-primas e reduzir a dependência de um único parceiro. O CETA, o acordo comercial entre a UE e o Canadá, mostra o que é possível. As exportações francesas de mercadorias para o Canadá aumentaram 45% desde 2017, e as exportações francesas de serviços mais que dobraram.
Nada disso acontece sem confiança. A Europa tem 450 milhões de consumidores, empresas de classe mundial, uma força de trabalho altamente qualificada, 20% dos gastos globais em P&D, altos níveis de poupança e o Estado de Direito. Em um mundo fragmentado, esses ativos são raros. O desafio é combiná-los com determinação, a mesma tenacidade celebrada nas quadras de Roland Garros. A vitória pertence ao mais tenaz.